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Eu Queria Ser Esse Cara

A Igreja de Stanley Kubrick

Como é possível ficar com medo só de ver os vestidinhos de duas gêmeas? A resposta é: Stanley Kubrick

Como é possível ficar com medo só de ver os vestidinhos de duas gêmeas? A resposta é: Stanley Kubrick

Se alguém me dissesse algum tempo atrás que eu passaria uma tarde ao lado de Christiane Kubrick e Jan Harlan vendo objetos que foram usados em filmes de Stanley Kubrick eu pediria para essa pessoa ser internada. Para entender o nível da minha obsessão, digo apenas que se existisse uma Igreja de Stanley Kubrick eu seria padre.

Foi inaugurada ontem no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, a Exposição Stanley Kubrick. Não preciso entrar em muitos detalhes técnicos porque isso você pode ler em qualquer outro lugar – a mídia está divulgando a mostra com grande (e merecido) estardalhaço. O mais incrível, portanto, é descrever a experiência que foi passar alguns momentos dentro de um universo realmente Kubrickiano. Estou como o personagem de Tom Cruise em ‘De Olhos Bem Fechados’: até agora não sei se foi um sonho ou se realmente aconteceu.

Aguardo essa exposição há algum tempo, desde que fiquei sabendo que ela viria para São Paulo depois do sucesso que fez no Lacma, em Los Angeles. Escrevi um artigo para a revista Elle sobre o assunto e estava ansioso para que tivesse início essa grande ‘onda Kubrickiana’ que estamos vivendo na cidade, da qual fazem parte a exposição, a retrospectiva, os filmes, o workshop de Jan Harlan (cunhado e produtor executivo de Kubrick) e o curso do Sérgio Rizzo no MIS (que também estou fazendo obviamente), além, claro, da homenagem da Mostra Internacional de Cinema, que começa semana que vem. O pôster, inclusive, é uma bela pintura de Christiane Kubrick (viúva do diretor) retratando um bastidor da filmagem de ‘Barry Lyndon’.

A abertura da exposição foi ontem, portanto ainda escrevo sob o forte impacto psicológico e emocional que o evento produziu em mim. Cheguei ao MIS à tarde, para uma visita guiada que seria feita para a imprensa por ninguém menos que o próprio Jan Harlan. Imaginei que Jan (olha a intimidade) seria formal e inatingível (qualquer pessoa do círculo familiar de Kubrick seria tão recluso quanto ele, certo?), mas o encontro andando pelo museu antes mesmo da visita começar.

Obviamente me aproximei e comecei a puxar papo. Perguntei se ele conhecia alguma coisa do cinema brasileiro; ele me disse que conhecia pouco, mas tinha visto ‘Cidade de Deus’, de Fernando Meirelles, e que gostava muito do filme ‘Casa de Areia’, de Andrucha Waddington. A partir daí a conversa rolou solta: falamos principalmente sobre música, uma das paixões de Kubrick e, pelo que pude perceber, de Jan também. Perguntei por que Kubrick nunca havia usado a música de Gustav Mahler em seus filmes, uma vez que o compositor era um de seus favoritos. Jan respondeu que isso não era condição básica, já que a música favorita de Kubrick era o Réquiem de Brahms, e que ele também nunca havia usado em nenhum filme… E depois me disse que Kubrick também era fanático pelo Quinteto para Cordas em Dó Maior, de Schubert.. na verdade, Kubrick era fanático por qualquer coisa de Schubert, principalmente os Trios. E daí Jan me contou algo que eu nunca havia lido em nenhum lugar: Kubrick havia sido baterista de jazz quando era mais novo! Imaginar Stanley Kubrick tocando bateria é uma cena tão bizarra que poderia até estar em um de seus filmes.

Perguntei também sobre o projeto ‘Dr. Jazz’, que seria baseado no livro ‘Swing Under the Nazis’, de Mike Zwerin, sobre um oficial alemão que contrabandeava discos de jazz e protegia os músicos negros. Jan me confirmou a história, mas disse também que Kubrick mantinha vários projetos simultâneos, e alguns iam pra frente, outros não. Infelizmente, esse não foi.

Minha conversa com Jan foi interrompida quando André Sturm, do MIS, anunciou que a visita guiada teria início. Tudo bem: ia começar a nossa viagem pelo universo Kubrickiano. Ou, como veremos a seguir, pelos ‘universos Kubrickianos’, no plural.

A exposição, com maravilhosa cenografia do sérvio Marko Brajovic, é dividida em salas dedicadas a cada um dos filmes. Os três curtas ‘Day of the Fight’, ‘Flying Padre’ e ‘The Seafarers’, e o três primeiros longas da chamada ‘fase de aprendizado’, ‘Fear and Desire’ (Medo e Desejo), ‘Killer’s Kiss’ (A Morte Passou Perto) e ‘The Killing’ (O Grande Golpe), ganharam uma área menor na exposição, com espaço basicamente para fotos da produção e making of, além de recortes de jornais da época. Todas as salas, aliás, têm esse tipo de material, o que dá vontade de passar horas só vendo o que se falava de Kubrick e como essas opiniões foram mudando ao longo dos anos.

O primeiro a ganhar uma sala exclusiva é ‘Paths of Glory’ (Glória Feita de Sangue), que muitos (inclusive Woody Allen) consideram o melhor filme de guerra (ou anti-guerra, se preferir) já realizado. Como cada sala privilegia um aspecto do cenário do filme em questão, esta sala dedicada ao clássico estrelado por Kirk Douglas é montada dentro de uma trincheira – o que nos remete às cruéis e realistas cenas das batalhas na primeira guerra em 1916.

A partir daí entramos no universo de ‘Dr. Strangelove – Or How I Learned Stop Worrying and Love the Bomb’ (Dr. Fantástico – Ou como Parei de me Preocupar e Amei a Bomba), o filme mais engraçado de Kubrick. Há uma maquete da ‘Sala de Guerra’ do Pentágono, cenário de um dos melhores diálogos da história do cinema. Para quem não lembra: Um embaixador russo e um general americano começam a trocar socos, enquanto o presidente dos Estados Unidos (Peter Sellers) dá uma bronca nos dois: “Parem! Vocês não podem brigar aqui, aqui é a Sala da Guerra!” Uma pérola do humor negro Kubrickiano.

A exposição não é exatamente cronológica nem linear, portanto depois disso entrei em ‘Barry Lyndon’. E foi aí que me dei conta (pela 789º. Vez) da genialidade de Kubrick. Cada um de seus filmes era um universo em si, e na exposição dá para perceber que isso não é apenas maneira de dizer. Você entra na sala de ‘Barry Lyndon’ e é imediatamente transportado para uma outra época, um outro século, um outro mundo. A melhor analogia seria dizer que um filme de Kubrick é um portal. Para situar no tempo e espaço, Barry Lyndon nos faz reviver a nobreza do século 18, o que Kubrick capturou com perfeição ao filmá-lo inteiramente com velas. Dá para imaginar o trabalho? Meses e meses de filmagens e milhares de velas, que tinham que ser substituídas na medida em que iam diminuindo de tamanho, para não atrapalhar a continuidade das cenas? E a dificuldade para filmar com tão pouca luz? Kubrick praticamente teve que reinventar câmeras e lentes para fazer isso. Que outro diretor seria tão perfeccionista?

Na entrada do próximo filme, um cartaz anuncia: “Não é indicado para pessoas sensíveis.” Apesar de me considerar um cara sensível, entrei sem pensar duas vezes e invadi outro mundo, o horror de ‘The Shining’ (O Iluminado). Parabéns para o MIS, que criou um ambiente que nos dá a impressão de estar andando pelos corredores do Hotel Overlook. Ao abrir (literalmente) as portas dos quartos, os icônicos objetos do filme são revelados. Os principais: a máquina de escrever Adler em que Jack Torrance escreve ‘All Work and No Play Makes Jack a Dull Boy’ (inclusive o papel datilografado com as frases está lá), o suéter com a estampa da Apollo 11 do garotinho Danny, os sapatos e as roupinhas azuis e assustadoras das gêmeas; a faca com que Wendy tenta se defender do marido e, finalmente, o machado com que o personagem de Jack Nicholson persegue a família. Enquanto andamos pelos corredores, a trilha sonora do filme toca em alto e bom som nas caixas, aumentando a nossa sensação de terror. Nunca fiquei tão feliz em sentir medo. Ah, o horror, o horror.

Entro então na sala mais incrível de toda a mostra: ‘2001: A Space Odissey’ (2001: Uma Odisseia no Espaço). A sala é decorada como o quarto da cena final do filme, com seus grandes quadrados brancos iluminados no chão. Não consegui conter as lágrimas, mas fui discreto e acho que Jan, que estava ao meu lado, não notou. Foi aí que ele disse: “Já fui a todas às dez exposições Stanley Kubrick em todo o mundo, e essa é a sala mais bem feita que já vi.” No centro da sala, o misterioso monolito negro vira um monitor que exibe imagens do filme. Incrível como Kubrick antecipou no monolito o design do iPhone…

Foi aí que minha emoção ficou mais completa: entrou na sala Christiane Kubrick, mulher de Kubrick durante 42 anos. Muito simpática, tirou algumas fotos da exposição e conversou com todo mundo. Disse que Kubrick teria adorado aquela sala, principalmente as luzes brancas que formam um círculo e dão a impressão de que estamos dentro de uma nave espacial. Chris (olha a intimidade) me disse ainda que era a primeira vez que viajava para a América do Sul, enquanto Jan Harlan já esteve no Brasil há dois anos para ser jurado da Mostra Internacional de Cinema. “He likes to get around”, brincou. A sala tem ainda objetos de cena, como os talheres feitos pelo dinamarquês Arne Jacobsen. O design moderno-minimalista revela como Kubrick era obcecado pelos mínimos detalhes. Eles são tão simples, tão ‘clean’, que parecem as ferramentas usadas pelos primatas da primeira parte do filme, ‘The Dawn of Men’. Até nisso há uma simetria perfeita do pensamento conceitual de Kubrick. Obrigado, senhor.

‘Lolita’ e ‘Spartacus’ ganharam salas pequenas: a primeira recria um clima lúdico e ingênuo dos anos 60; a segunda tem grades que simulam a jaula em que os escravos ficavam presos antes de serem obrigados a se tornar gladiadores e lutar por suas vidas.

A próxima sala é a sensacional ‘A Clockwork Orange’ (Laranja Mecânica). No ambiente respira-se o universo distópico do filme, com destaque para o figurino do protagonista Alex DeLarge, a roupa branca e os coturnos pretos, os suspensórios e o chapéu coco. Dá a impressão de que estamos dentro do Korova Milk Bar, onde a gangue de vândalos (seriam eles uma espécie de Black Blocs da época? Brincadeira) se reunia para tomar leite misturado com as drogas velocete e moloko.

Subindo o andar temos o alojamento dos soldados de ‘Full Metal Jacket’ (Nascido para Matar), onde é possível deitar nas camas e ver trechos do filme em pequenos monitores. Ao lado, a sala de ‘Eyes Wide Shut’ (De Olhos bem Fechados) é uma das mais interessantes em termos de produção – até por ser mais recente. Vemos as máscaras e fantasias que os personagens usaram na famosa cena da festa-orgia, ocasião em que o penetra Tom Cruise era julgado e salvo na última hora por uma prostituta. A sala apresenta uma atmosfera de sonho, o que nos remete imediatamente ao livro sobre o qual o filme é baseado (‘Traumnovelle’, de Arthur Schnitzler). Dizem que as máscaras descritas no livro deste contemporâneo de Freud exerceram forte influência sobre o pai da psicanálise. É lá também que vi um dos itens mais interessantes da exposição: uma planta da rua de Nova York que Kubrick recriou em estúdio na Inglaterra. O nível de detalhe é impressionante: há dados e referências de vitrines, calçadas e fachadas, tudo pesquisado pela equipe de Kubrick durante anos.

Só Stanley Kubrick poderia ter em sua exposição uma área para filmes que NÃO foram feitos. ‘Napoleão’ traz itens da produção que estava adiantada quando Kubrick a cancelou. Entre as razões para isso estavam o alto orçamento e as dificuldades que viriam após a decisão de usar como figurantes soldados de verdade do exército romeno. Mas Kubrick também abandonou ‘Napoleão’ porque pouco antes havia sido lançado o fracasso de bilheterias ‘Waterloo’, que, segundo Jan Harlan, mostra ‘a parte menos interessante da vida de Napoleão’.

O outro filme de Kubrick que não saiu do papel e que também está presente na exposição é ‘Aryan Papers’ (Papéis Arianos), sobre o Holocausto. O tema, outra obsessão de Kubrick, também foi deixado de lado devido ao desgaste emocional e ao sucesso de ‘Lista de Schindler’, de seu amigo Steven Spielberg. Spielberg, aliás, também está presente na mostra por meio de informações sobre a produção de ‘A.I. – Inteligência Artificial’, que ele dirigiu a partir de um projeto que era originalmente de Kubrick.

Há uma área da mostra dedicada ao trabalho de Kubrick como fotógrafo, carreira que ele começou aos 16 anos na revista Look. Há lentes, câmeras e muito material técnico bastante interessante. Ao ver seu trabalho como fotógrafo, a gente percebe de cara que dali sairia um artista muito interessante – o que obviamente aconteceu alguns anos mais tarde quando ele trocou a fotografia pelo cinema.

Fim da visita guiada. Hora de relaxar e curtir o coquetel em homenagem a Christiane e Jan Harlan. Aproveitei para correr para a lojinha do MIS e comprar o gigantesco livro ‘Stanley Kubrick Archives’, que sempre esteve em minha lista de objetos de desejo. Não tive vergonha de pedir para Christiane e Jan assiná-lo. Eles foram muito carinhosos e concordaram. Hoje, sobre a mesa da minha sala, eu sinto como se tivesse uma Bíblia assinada por Maria Madalena e Pedro. Amém.

A Bíblia da Igreja de Stanley Kubrick, em edição assinada por Maria Madalena e Pedro

A Bíblia da Igreja de Stanley Kubrick, em edição assinada por Maria Madalena e Pedro

Comentários

12 comentários para “A Igreja de Stanley Kubrick”

  1. Impressionante como as suas emoções transbordaram neste texto! A cada descrição que você faz é possível ir imaginando os cenários visitados e sentir o contágio de seus sentimentos tão intensos. Praticamente também já estou íntima de Chris e Jan e muito instigada a conhecer mais profundamente a obra de Stanley Kubrick. Culpa sua Sr. Felipe, discípulo kubrickiano. Um abraço!

    Postado por Fernanda Delicio Fuck | 12 de outubro de 2013, 2:46
    • Oi Fernanda, que legal que você gostou do texto! Realmente fiquei muito emocionado por estar perto da obra de um cara que sempre admirei. E fazer isso ao lado de sua viúva e seu produtor… foi algo muito especial. A emoção acaba ficando na frente mesmo, mas como este é um blog e não um jornal… dá para fazer esse tipo de coisa. :-)

      Bjs, F.

      Postado por Palavra de Homem | 14 de outubro de 2013, 11:13
  2. Te entendi completamente; pra mim, os grandes cineastas são os meus “astros do rock”
    ;-)

    Postado por Claudia Maria de Oliveira | 14 de outubro de 2013, 19:14
  3. Viajei contigo!!A sua narrativa apaixonada e vívida me fez sentir dentro daqueles mundos kubrickianos. Além das informações interessantíssimas de pessoas próximas a ele. O seu texto pulsa de energia contagiante: Viva Kubrick!! Adorei.

    Postado por Oswaldo Melo Souza Filho | 15 de outubro de 2013, 0:12
  4. Ótimo texto, Felipe!
    Só um profundo conhecedor de Kubrick poderia escrever assim, com essa riqueza de detalhes e com tamanha emoção!
    Parabéns, Felipe!
    Kubrick também teria o maior orgulho de você!

    Postado por Helô Machado | 15 de outubro de 2013, 17:45
  5. Felipe, olá!

    Belo texto!
    Gostaria apenas de confirma uma informação com você: o filme ‘Casa de Areia’, a que se refere no texto (ao relatar a resposta de Jan Harlan), é de Andrucha Waddington, correto?

    Ou será que se trata de outro filme?

    Grato pelo texto e pela atenção.
    Mirna

    Postado por Mirna | 29 de dezembro de 2013, 17:55
  6. Ainda posso querer ver essa exposição? Não acho que sou um São Tomé. Mas nas descrições deste fabuloso jornalista, que sinto muito sua falta num determinado jornal…Eu prefiro esta narrativa tão completa como um roteiro de um excelente livro. Parabêns meu amigo! O que os olhos não viram, o meu coração pode sentir muito bem, através dessa leitura. Foi impressionante o que pude ler e prefiro mergulhar no universo de sua narração. Indo visitar, posso me decepcionar… Gosto da fantasia de não saber o como foi…gosto do mistério.

    Postado por gioacchino vecchione | 13 de janeiro de 2014, 20:16
    • Grande Gioacchino Vecchione,

      obrigado pelas palavra carinhosas! Realmente, tentei passar um pouco além da exposição, afinal uma mostra como esta não é apenas feita de objetos e cenários, mas de emoções e conceitos.

      A mostra já acabou, mas tenho certeza que você não iria se decepcionar!

      Abração e valeu mais uma vez, Felipe

      Postado por Palavra de Homem | 21 de janeiro de 2014, 11:40

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