Das festas ao desembarque – Chilli Beans Fashion Cruise – PARTE 4

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DJ Alok, considerado um dos melhores do mundo, foi o destaque das baladas de música eletrônica do Chilli Beans Fashion Cruise. Foto de Ale Frata / MRossi Rockshow

DJ Alok, considerado um dos melhores do mundo, foi o destaque das baladas de música eletrônica do Chilli Beans Fashion Cruise. Foto de Ale Frata / MRossi Rockshow

Quem vê as fotos das festas cheias de gente animada pode ser levado a imaginar que o cruzeiro da Chilli Beans foi uma grande balada que durou quatro dias. Essa pessoa está certa. Para muita gente, o cruzeiro realmente foi um grande festa nababesca, uma mistura de Carnaval e Calígula. Para outros, no entanto, como eu, foi uma oportunidade muito interessante para fazer networking nas áreas de moda e criatividade e para aproveitar os diversos eventos paralelos que ocorreram durante o evento.

Para quem acordava cedo, os dias começavam com uma aula de Yoga com André Meyer, um dos mestres mais conhecidos do país. André foi um dos pioneiros do piercing no Brasil e um dos caras mais simpáticos que já conheci. Infelizmente, não cheguei a assistir nenhuma aula – quem sabe se ele vier a criar um curso, um pouquinho mais, digamos, vespertino?

Depois das aulas de Yoga tinham início os eventos paralelos. Além dos já citados desfiles de marcas como Blue Man, Água Doce, Amú, Coca Cola Jeans, Cavalera e Herchcovitch: Alexandre, os mais interessantes sem dúvida foram as palestras e workshops. O hypado centro italiano Istituto Marangoni, por exemplo, deu o curso Fashion Campaigns & Advertising que foi extremamente adequado para jovens estilistas e profissionais da criação.

Temas como Economia Criativa, redes sociais para pequenos negócios e empreendedorismo também foram abordados entre os palestrantes. Em um horário um pouco mais Machadiano, lá pelas 5 da tarde, tive o prazer de assistir a um concurso de Fashion Film, um formato que começa a se popularizar entre os fashionistas.

O Fashion Film é uma espécie de vídeo-clipe conceitual da marca, como se fosse um editorial filmado. A vencedora foi Nathália Frameschi, com um vídeo para a Água Doce – meu favorito era o FF da Cavalera. O concurso Summer Look também elegeu uma garota de 17 anos como nova aposta do mercado de modelos.

Mas nem todos os eventos paralelos eram dedicados apenas ao lado profissional. A Rádio Rock 89 FM, por exemplo, promoveu um divertidíssimo karaokê com a participação da banda do navio, um power trio mezzo italiano mezzo brasileiro com caras que chegam a passar até seis meses praticamente sem pisar em terra firme. Quem preferia papo em vez de música pode acompanhar os ídolos do mundo da moda, Alexandre Herchcovitch, Caíto Maia e Dudu Bertolini, que participaram de talk-shows ao vivo com a participação – sempre animada – do público.

À noite, não tinha jeito: festa, festa, festa! A 89FM promoveu uma superfesta de rock & roll com os DJs Luka, Armando Saullo e Thiago Deejay, mas a trilha sonora predominante do cruzeiro foi mesmo a música eletrônica. O público foi ao delírio quando Caíto Maia revelou que o DJ Alok estava no navio e que iria representar a festa que foi eleita a  tocar na festa do sábado à noite. Foi quando eu me perguntei: “DJ quem?”

Em votação feita pela internet, a revista DJ Mag elegeu a balada Green Valley, em Balneário Camboriú, a melhor casa noturna do mundo. E quem é o DJ residente lá? Alok.

Na hora em que Alok tocou, no entanto, tentei prestar atenção para analisar o que ele tinha de diferente em relação aos DJs que tocaram antes dele e finalmente descobri: nada. Entrava DJ, saia DJ e o som continuava o mesmo. Tums-tums-tums-tums. Ao contrário dos meus amigos roqueiros, no entanto, não fico incomodado com esse tipo de som. Após uns cinco minutos, começo a achar que o ritmo já faz parte da paisagem.

O cruzeiro chega ao fim na manhã de segunda-feira, onde o clima de ressaca é tão evidente quanto a felicidade dos tripulantes ao ver que poderão finalmente descansar. Descubro que teremos que deixar a cabine às 7h para o início do desembarque, e aí entendo ainda melhor a complexidade logística que exige o funcionamento do navio – algo que já tinha chamado a minha atenção desde o embarque. Basta lembrar que o desembarque de um avião já é uma operação delicada, mesmo com os 200 e poucos passageiros que um jato comercial transporta. Agora imagine realizar o check out de quase quatro mil pessoas. É praticamente a população de uma pequena cidade abandonando o local e levando seus pertences junto. É por isso que a saída é organizada em diversos turnos, com cores e números que identificam os passageiros e tripulantes. Quando lembro que isso aconteceu na segunda-feira às 7h, fico até com preguiça.

Descer a escada do navio é uma cena clássica, um desembarque ‘literal’. Ao colocar os pés em terra firme, continuei sentindo que o chão se movia, obviamente uma sensação induzida por um pequeno engano do cérebro. Viro a cabeça e olho o navio, um monstro de 15 andares, e constato que a metáfora do arranha-céu horizontal faz todo o sentido.

Olho para me despedir do navio e vejo um tripulante debruçado no convés, a muitos metros de distância. Ele observa o desembarque, a quantidade enorme de pessoas saindo do seu navio. Não consigo identificá-lo, ele está muito longe, nem sequer consigo apontar sua nacionalidade. Consigo apenas ver que é um homem de branco, de camisa e boné. Pela posição da sua cabeça, no entanto, suponho que ele esteja olhando para mim.

Como que guiada pelo instinto, minha mão se levanta sozinha. No ar, ela se agita da direita para a esquerda de maneira preguiçosa, quase com vergonha do que está fazendo: acenando para um desconhecido. É um gesto infantil, da mesma maneira que sorrimos e damos tchauzinhos para aviões ou helicópteros quando somos crianças.

Fico com vergonha ao perceber a ingenuidade da minha atitude. Olho para o lado para ver se alguém está olhando para mim; parece que não. Se estivesse, certamente me acharia ridículo, em plena segunda-feira de manhã um cara totalmente comum, um cara de cabelo curto, sem piercing nem tatuagem, dando adeus como uma criança para um tripulante do navio.

Mesmo que alguém tivesse me visto, eu não me importaria. Não tenho piercing nem tatuagem, não tenho mais cabelo comprido nem alargadores roxos. Mas também sou um ser humano único, sou a minha própria tribo, sou um personagem tão original e louco quanto qualquer outro que desceu por aquela escada.

Para minha surpresa, o homem lá em cima, no topo do navio, se mexe. Olho em volta e vejo que ninguém está olhando para ele. Para as outras pessoas é bem provável que ele seja invisível. Para mim, não: o tripulante abre um sorriso, levanta a mão direita lentamente até à altura da cabeça e acena de volta.

Desembarcar é um doce pesar, já dizia Shakespeare… Até 2017, Chilli Beans Fashion Cruise! Foto by Felipe Machado #NoFilter

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