Ave, Joel e Ethan: O cinema divino dos irmãos Coen

Mavsa Resort fica a apenas 90 minutos de São Paulo... mas parece que a gente está a anos-luz de distância
Mavsa Resort: Um oásis familiar a 90 minutos de São Paulo
James Hetfield, do Metallica: Suas bases de guitarra são mais complexas que muitos solos
Os Top 10 Guitarristas Base da história do rock

Ave, Joel e Ethan: O cinema divino dos irmãos Coen

George Clooney em 'Ave, César': Em um filme repleto de referências, mitos do cinema são retratados como crianças talentosas e mimadas

George Clooney em 'Ave, César': Em um filme repleto de referências, mitos do cinema são retratados como crianças talentosas e mimadas

A reverência ao cinema é tão grande na obra dos irmãos Coen que sempre desconfiei de que eles consideravam fazer filmes uma atividade sagrada. Em ‘Ave, César’, no entanto, eles foram mais longe: o filme mostra que o cinema não é apenas divino, mas Deus em pessoa. Só na sétima arte é possível criar universos sem descansar no sétimo dia, mundos onde o poder sobrenatural dos produtores pode subverter a noção de tempo e espaço, mentira e verdade, realidade e fantasia. Ao anunciar ‘Faça-se a luz’ na introdução do Gênesis, Deus foi apenas a versão bíblica de um diretor de Hollywood gritando ‘luz, câmera, ação’.

É esse culto ao cinema que faz de ‘Ave, César’ um maravilhoso filme sobre filmes. Não é apenas uma declaração de amor dos Coen aos astros e estrelas que há décadas povoam nossos sonhos, mas um reconhecimento da importância do papel dos quase-anônimos ‘homens comuns’ do cinema: editores, iluminadores e figurantes que fazem do cinema o que o cinema é.

O roteiro de ‘Ave, César’ é tão irônico que logo nas primeiras cenas vemos um figurante subjugando o protagonista, espécie de vingança do baixo clero, do ‘homem comum’ contra o ‘deus do cinema’. Como dizia o personagem de John Torturro em ‘Barton Fink’, outra obra dos Coen que reverencia o cinema, “as esperanças e os sonhos do homem comum são tão nobres quanto a de qualquer rei”. Seria o figurante tão importante quanto o astro, para os irmãos Coen? Sob uma perspectiva ‘comunista’, sim – e essa é apenas uma das leituras do filme. Como tudo que leva a assinatura dos Coen, no entanto, fazer uma interpretação literal dessa mensagem é como levar a sério uma comédia italiana.

A ideia de fazer um filme dentro do filme não é exatamente nova, mas os irmãos Coen pegaram o conceito e o elevaram muitos tons acima. Há muitos adjetivos que podem ser usados para descrever ‘Ave, César’. Inteligente, muito engraçado, sarcástico, crítico, bonito de se ver. Mas nada descreve melhor ‘Ave, César’ do que simplesmente dizer que é um filme genial.

Personagens reais

‘Ave, César’ conta a história de Eddie Mannix, personagem real que trabalhou no estúdio MGM em Hollywood nos anos 1950. Embora seja um alto executivo, o que Mannix mais faz no filme é atuar como uma espécie de babá de luxo de astros do cinema, obrigado a resolver problemas pessoais e conflitos entre homens e mulheres vaidosos e egocêntricos. Um deles, Baird Whitlock (George Clooney), desaparece misteriosamente e depois descobrimos que ele foi sequestrado por uma turma de intelectuais comunistas.

A referência aqui é à geração de escritores influenciados pelas ideias dos líderes comunistas pós-revolução russa, uma ideologia que à época parecia romântica e justa. Hoje, quando observamos o que aconteceu e percebemos que ditaduras de esquerda são tão ou mais sanguinárias que as de direita, temos o distanciamento para rir do comportamento ingênuo que norteava tantas mentes brilhantes. Mesmo assim, foi corajoso – e super politicamente incorreto – da parte dos Coen brincar com um episódio que afetou diretamente tantos nomes importantes do cinema mundial, entre eles os ‘Hollywood Ten’, roteiristas que foram impedidos de trabalhar pela comissão criada pelo senador conservador Joe McCarthy porque eram comunistas.

O que torna ‘Ave, César’ uma bela homenagem ao cinema é a dança harmoniosa entre os universos dos filmes, já que cada personagem parece ser pinçado de um estilo cinematográfico diferente. Parece que o roteiro partiu da premissa “vamos criar uma história que envolva cenas de faroeste, épico bíblico, musical, filme noir, espionagem e inventar alguma coisa a partir daí”.

Nas mãos de qualquer um, ou melhor, nas mãos de qualquer dois, ‘Ave, César’ poderia virar uma colcha de retalhos mais interessante pela forma do que pelo conteúdo. Nas mãos dos Coen, no entanto, o filme ganha aquele ritmo sempre alucinante dos filmes da dupla e esconde camadas e camadas de interpretações. Como as atuações também são um tom acima do normal, histriônicas e divertidas, é tudo amarrado de maneira tão crível que acreditamos que tudo aquilo poderia ser ‘real’. Claro que não é. Mas esse ultrarrealismo, rococó e exagerado, é mais uma parte da paródia que relativiza o cinema como atividade de sonho, lúdica, fora da realidade. Uma atividade, como ironiza o filme, de ‘fé’.

Mannix acredita piamente em Deus, mas, mais do que isso, ele acredita no cinema. É um ‘homem sério’, como bem define o livro ‘Are you serious?’, de Lee Siegel: afinal, a seriedade é um dos poucos valores que faz a vida valer a pena. Um conceito que faz muito sentido nos frívolos dias de pós-modernidade. Não é tão à toa que os irmãos Coen tem no currículo um filme chamado ‘Um Homem Sério’: pelo jeito são fascinados pela seriedade – e pelo extremo oposto.

Já que a ideia era fazer uma homenagem ao cinema, vale lembrar algumas curiosidades sobre o filme. Eddie Mannix não foi o único personagem que existiu na vida real; praticamente todo o elenco foi inspirado em atores de Hollywood. Baird Whitlock (George Clooney) nasceu a partir de três lendas do cinema: Robert Taylor, Charlton Heston e Kirk Douglas – o visual de guerreiro romano foi claramente inspirado em ‘Spartacus’, de Stanley Kubrick; DeeAnna Moran (Scarlett Johansson), que faz o papel de uma sereia, é uma mistura de Esther Williams e Loretta Young; Burt Gurney (Channing Tatum) é Gene Kelly; as irmãs Thora e Thesaly Thacker (Tilda Swinton) foram baseadas na repórter de fofocas Hedda Hopper; Carlota Valdez (Veronica Osorio) é Carmen Miranda; Laurece Laurentz (Ralph Fiennes) é Vincente Minnelli; e por aí vai.

Como todo bom filme, ‘Ave, César’ possibilita muitas leituras e é bom entretenimento até mesmo para quem só entende o lado superficial da trama. Mas quem prestar atenção a todas as referências contidas nas várias camadas (layers) da trama vai descobrir que, por trás de um filme supostamente despretensioso e divertido, esconde-se uma emocionante homenagem um século de cinema. Como já haviam feito antes em ‘Barton Fink’, os irmãos Coen usam os exageros da ficção para retratar uma visão da verdade, como uma espécie de documentário do absurdo. Mas quem disse que seria fácil discernir entre a realidade e o sonho quando o tema do filme é o próprio cinema?

Corta!

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *