Soldados nazistas no Museu do Louvre: A ‘Arca Francesa’ de Alexander Sokurov

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Soldados nazistas no Museu do Louvre: A ‘Arca Francesa’ de Alexander Sokurov

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Oficiais nazistas caminhando calmamente pelos corredores do Museu do Louvre. Containers cheios de obras de arte caindo de um navio cargueiro em meio ao mar revolto. Napoleão olhando para a ‘Mona Lisa’ de DaVinci e dizendo: “sou eu”.

‘Francofonia’ é o mais recente filme do cineasta russo Alexander Sokurov. Como todos os seus trabalhos, é uma obra surpreendente e perturbadora – no bom sentido.

O cineasta russo ficou famoso em 2002 pela obra-prima ‘Arca Russa’, um filme coreografado milimetricamente como um ballet de 99 minutos em que um aristocrata francês encontra figuras históricas enquanto passeia pelo museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. Um pequeno detalhe que chamou a atenção de todos à época de lançamento: o filme não tem cortes. Sim, é isso que você leu: um filme com mais de 1h30, com mais de dois mil figurantes, feito inteiramente em apenas um take. Nos bastidores, dizem que Sokurov ensaiou o filme durante um ano antes de se arriscar a ligar a câmera.

Depois disso Sokurov fez ‘Fausto’ e ‘Aleksandra’, entre outros projetos. Mas em ‘Francofonia’, por alguma razão que nunca saberemos, ele retomou a temática de ‘Arca Russa’– com outra pegada.

‘Francofonia’ é um filme fácil? Não. Em primeiro lugar porque é um filme impossível de se classificar. Apesar de ser divulgado como documentário, está longe de ser um relato realista de um fato que aconteceu na metade do século XX, mais especificamente durante a 2ª. Guerra Mundial. Para fazer uma alegoria sobre a importância da arte para a civilização, Sokurov imagina a inusitada reunião que em algum momento da história aconteceu de verdade em plena Paris ocupada pelos nazistas: um oficial de Hitler e o diretor do Museu do Louvre se encontram para discutir o que fazer com o museu agora que Paris é propriedade de Hitler.

Imaginar que os nazistas tiveram sob sua gestão o tesouro que é o Museu do Louvre é uma temeridade. Associar nazismo e arte, na verdade, é quase uma contradição em si. Apesar dos filmes de Leni Riefensthal serem lindos e poderosos do ponto de vista da simetria e imagem/propaganda, a estética nazista passa a anos-luz de obras clássicas como a Vitória de Samotrácia ou A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix, por exemplo. Imaginar nazistas dentro do Louvre é como descobrir que há bactérias no corpo de uma criança saudável.

Pois esse é apenas um dos temas do filme. Sokurov alterna a ficção do suposto encontro entre o oficial alemão e o burocrata francês com cenas de um navio cargueiro cheio de obras de arte à deriva. O que isso quer dizer? Não procure respostas fáceis nos filmes de Sokurov, eles são pensados para instigar perguntas. A perda de obras de arte do navio, que parte do Oriente Médio, nos faz pensar que vivemos numa época em que o Talibã e o Estado Islâmico costumam destruir obras de arte para impor sua ideologia fanática.

Em seu escritório, Sokurov em pessoa – sim, o próprio diretor – conversa com um tripulante do tal navio pelo Skype. O marinheiro reclama que nunca deveria ter aceitado uma carga tão valiosa como essas obras de arte. Elas valem, então, mais que as vidas que estão a bordo? Qual é o valor real de uma obra de arte? É o seu valor de mercado ou o que ela representa como retrato de um momento criativo de um artista em um contexto maior, cultural, civilizatório, humano?

É aí que entra a inteligência de Sokurov. Entre a ficção imaginada do encontro entre o alemão e o francês e a realidade inventada do navio naufragando, Sokurov instiga o público com imagens de época da França ocupada, mostrando como a estupidez e arrogância dos governantes franceses levaram à morte milhares e milhares de soldados franceses e permitiram que a Alemanha ocupasse a França. E como poucos e covardes líderes franceses se submeteram ao poder de Hitler em benefício próprio, apenas para obter o poder e subjugar grupos rivais. Lembrando que fizeram isso mesmo sabendo que isso custaria a honra e história de um país que à época era o epicentro da cultura mundial. Como estaria a França hoje se esses governantes não tivessem traído seu povo? Seria a França a maior potência mundial se o destino da guerra tivesse sido outro?

Há outro elemento de provocação: o fantasma de Napoleão Bonaparte. Como se sabe, o palácio do Louvre foi transformado em importante museu exatamente na época do apogeu do imperador francês, o que só foi possível graças aos saques que Napoleão e seu exército realizaram durante suas sangrentas campanhas. Pois bem: se o Louvre se tornou o maior museu da humanidade graças principalmente ao exército saqueador de Napoleão, por que os nazistas não teriam o ‘direito’ de fazer a mesma coisa na França? Por que Hitler e seus oficiais não saquearam o Louvre e levaram todas as suas obras para os museus alemães? Isso teria sido legítimo? Pagar com a mesma moeda o que os franceses fizeram com outros povos derrotados?

Os alemães, no entanto, não fizeram isso. O filme não responde por quê. Talvez não haja uma reposta. Talvez a resposta seja um lampejo de humanidade por parte de algum nazista como Dietrich Von Choltitz, então governador de Paris, que não cumpriu as ordens do Führer quando este, acuado, mandou o oficial destruir os monumentos de Paris na iminência do nazismo perder a guerra. “Paris está em chamas?”, questionou Hitler. Mas Von Choltitz o desobedeceu, mesmo sabendo que isso poderia custar sua vida e de sua família. Salvar uma cidade como Paris vale mais que salvar a vida de sua família? Quantas vidas vale a Mona Lisa?

Claro que muitas obras do Louvre não estavam mais no museu quando os nazistas entraram em Paris; haviam sido transportadas para um território neutro, o sul da França. Os nazistas sabiam disso, e mesmo assim não quiseram roubá-las para levar para a Alemanha. Por quê? É possível haver algum tipo de humanidade mesmo entre aqueles que estão do lado do mal.

Apesar de todas as boas ideias e conceitos que traz, ‘Francofonia’ é um filme um pouco cansativo. A edição é incrível, mas não segura 1h28 no mesmo pique. A narração em off de Sokurov traz excelentes momentos poéticos e altamente reflexivos, mas depois de um tempo se torna arrastada e maçante. Os momentos de ficção que retratam o encontro entre o alemão e o francês são os trechos mais interessantes, mas talvez Sokurov tenha achado isso muito comum para seu cinema de vanguarda. Infelizmente, é um exemplo de que o excesso de visão artística pode ser prejudicial à obra.

De qualquer maneira, ‘Francofonia’ é um filme que vale ser visto. Não apenas pelo contraste entre o Bem (arte, Louvre) e o Mal (opressão, nazismo), mas também para lembrar do valor que a arte tem no momento em que pensamos, hoje, no mundo que queremos deixar para nossos filhos. E não estou falando do valor material da arte, embora este também exista (em um momento do filme, o narrador questiona se o que há dentro do Louvre é mais valioso do que a França inteira). O que vale aqui é o valor da arte como representação da civilização. É bom lembrar que aquelas obras do Louvre, lindas e imortais, são, antes de tudo, criações feitas por homens e mulheres como todos nós. Gente que nasceu, amou, chorou, sorriu, respirou, morreu. Pessoas que, de certa forma, se tornaram eternos graças a seus talentos e a essas entidades sagradas que chamamos de ‘museus’, mas que são, no fundo, edifícios de concreto e vidro construídos para enaltecer a grandeza do pensamento humano.

 

2 Comentários

  1. Drica disse:

    Texto bem escrito, que redação clara, limpa esclarecedora, parabéns! Um dos maiores medos que particularmente tenho é que o EL destrua o Louvre. Magnifico, encantador, como relatado no texto mais do que obras de arte, a história de vidas e da humanidade está guardada lá.

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