Metallica sobrevive à autodestruição em ‘Hardwired… to Self-Destruct’

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Metallica sobrevive à autodestruição em ‘Hardwired… to Self-Destruct’

Metallica: Disco de estúdio após oito anos mostra que a banda continua relevante no cenário musical

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Depois de oito anos sem ouvir um álbum novo do Metallica, chegou às lojas (lojas? Que lojas?) o álbum ‘Hardwired… to Self Destruct’.

Em cinco palavras: Porrada. Volume. Atitude. Intensidade. Fúria.

Desta vez o Metallica apostou forte na estratégia digital para garantir o sucesso do álbum, lançando vários clipes online pouco antes do lançamento oficial. Por mais que tenha sido bem sucedida ‘nas redes sociais’, na minha opinião a estratégia foi meio cansativa e me pareceu uma tentativa forçada de empurrar o álbum goela abaixo do público. Talvez o mundo moderno seja assim mesmo e a galera mais jovem nem pense mais nesses termos. Mas, hoje, dia do lançamento, nem tenho a impressão de estar ouvindo um álbum novo. Conceitualmente, ‘Hardwired… to Self-Destruct’ é uma metáfora da humanidade, que caminha para a destruição. Na minha opinião, funciona menos como obra de arte distópica e mais como declaração de morte da indústria da música, que se autodestruiu. Ou melhor, foi destruída… Mas essa é uma outra história.

E ficará para outro dia, porque hoje é dia de Metallica, porra!

Acompanhar o lançamento de ‘Hardwired…to Self-Destruct’ é uma sensação bem diferente do que eu sentia alguns anos atrás: quando um disco do Metallica chegava às lojas, era comprado com dinheirinho guardado para isso, para depois ser ouvido quase como em um ritual, com os amigos, da primeira à última música sem ninguém dizer nada, só olhando um para a cara do outro, no volume máximo, com riffs e arranjos tão originais que davam a impressão de que estávamos aprendendo a ler enquanto líamos um livro novo.

Ou talvez eu esteja sendo apenas nostálgico, o que é muito mais provável. Meu desafio passa a ser, então, falar sobre o álbum da maneira mais objetiva possível, sem deixar a memória entrar pelo vão da porta nem se esgueirar sorrateiramente pelos fios do fone de ouvido.

O produtor do álbum foi o engenheiro de som Greg Fieldman, que já trabalha com eles há tempos, produziu Slipknot e Slayer e, curiosamente, é um velho conhecido da banda brasileira ToyShop, dos meus brothers Guilherme Martin, Val Santos e Nando Machado (este, brother mesmo). Greg foi engenheiro de som da banda no estúdio Sound City, em Los Angeles, durante a gravação do álbum ‘Party Up’, em 1996. Quem diria que o engenheiro de som do ToyShop viraria produtor do Metallica?

Em termos de composições, tive a impressão de que o Metallica novo, apesar do estilo cru e pesado, teve muita ajuda da tecnologia. Vou tentar explicar de maneira didática.

Há alguns anos, antes da revolução digital dos anos 1990, os discos eram gravados em gravadores de fita, ou seja, de maneira analógica. O que era tocado no estúdio ficava registrado ali na fita, e qualquer alteração na estrutura da música tinha que ser feita por meio de cortes ou emendas cirúrgicas na própria fita. Deu para entender? Era bem complicado, por isso as bandas ensaiavam até a exaustão para não ter que recorrer a esse artifício.

Muito bem: hoje isso não é necessário. Graças a ferramentas como o (maravilhoso) Pro-Tools, é possível pegar um riff de guitarra aqui e emendar em um riff de guitarra ali; dá para pegar uma batida do refrão e colocar em outra parte da música. E vice-versa. E versa-vice. Enfim, dá para testar arranjos diferentes de maneira ridiculamente simples.

Isso dito, o que acho que o Metallica fez – e já vem fazendo há alguns álbuns, vamos ser justos – é juntar partes (riffs, batidas, vocais) que eles acham que combinam e fazer assim músicas novas. Ou seja, a tecnologia passou a fazer parte intrínseca da criação artística, não apenas na busca pelo som mais perfeito, mas principalmente na hora de compor. E isso, na minha opinião, tirou um pouco da ‘vitalidade orgânica’ da música do Metallica.

(Desculpe pela longa explicação, mas é que acho que essa abordagem tem influenciado os últimos trabalhos do Metallica e valia a pena ser lembrada.)

Agora vamos, finalmente, ao som.

‘Hardwired… to Self-Destruct’ tenta resgatar o Metallica dos tempos do álbum de estreia, ‘Kill em All’. Digo que ele ‘tenta’ resgatar porque o Metallica do ‘Kill em All’ já desapareceu há muito tempo. Isso não é culpa deles, mas de outro elemento que também é relevante na carreira de qualquer artista: o tempo.

A tentativa de querer preencher cada espaço do vácuo no álbum com riffs, batidas ou vocais, de preferência da maneira mais agressiva possível, me passa a ideia de uma banda que quer provar a qualquer custo que ainda mantém a vitalidade da juventude. Essa coisa de ‘voltar ao som do passado’ é bastante comum no heavy metal, mas nem sempre os resultados são tão bons. Por uma simples razão: na época em que a banda fazia o ‘som do passado’ ela não estava ‘tentando fazer o som do passado’, mas estava ‘fazendo o som do presente’.

Sei que a discussão pode parecer muito metafísica, mas não é: ‘querer’ fazer um tipo de som impede justamente que você ‘faça’ aquele som. Porque ele será sempre uma tentativa, uma réplica, uma busca por algo que já não está mais lá. Isso também aconteceu, na minha opinião, com o último disco do Iron Maiden, ‘The Book of Souls’. Há outros casos.

Talvez eu esteja sendo muito duro com o Metallica, mas eles são feitos de metal e podem muito bem aguentar o tranco (sorry, não consegui evitar o trocadilho).

Em termos de estilo, ‘Hardwired… to Self-Destruct’ é bem diferente de ‘Death Magnetic’, de 2008. Parece que os riffs estão mais simples, mas acho que as músicas têm mais partes. No ‘Death Magnetic’ as músicas tinham menos partes, mas elas eram repetidas mais vezes. Aqui, há mais partes, mas como elas não são repetidas tantas vezes, não ficam tanto na cabeça desde a primeira vez. Sei que vou parecer louco dizendo isso no dia do lançamento do disco, mas acho que ele será bem melhor quando estivermos mais acostumados com ele, ou seja, quando olharmos para trás e aceitarmos que ele se tornou um disco ‘velho’ do Metallica.

Há uma característica deste disco que ainda não sei se é boa ou ruim: ele é totalmente homogêneo. Todas as músicas são muito parecidas, todas praticamente com o mesmo pique. Isso mostra uma certa coerência artística, mas também mostra uma certa falta de criatividade. Fora que o álbum é muito longo, mais de 1h… precisa de tudo isso?

Falando sobre os músicos individualmente: James Hetfield vale sozinho o disco. Aliás, qualquer disco. Aliás, qualquer disco, em qualquer tempo, em qualquer banda. James é simplesmente incrível. Nesses tempos de valorização do digital, James é um vocalista que humaniza a música, traz emoção, raiva, fúria, vida, morte, tudo para dentro do som. Basta ouvir ‘Am I Savage?’, o melhor vocal do álbum.

Lars Ulrich. O que dizer? Que ele é antipático? Que não toca mais tão bem? Que sua maior preocupação é o sucesso? Por mais que tudo isso seja parcialmente verdade, é bom lembrar que o Metallica (e, de certa forma, o metal, por associação) não existiria sem esse baixinho dinamarquês meio arrogante. Então eu gosto de engolir em seco e dizer: apesar de tudo, Lars Ulrich é Lars Ulrich. Mesmo sem tocar mais no mesmo nível que Dave Lombardo ou Mike Portnoy, o cara ainda é o baterista do Metallica. Respect.

Kirk Hammet. Gosto dele, sempre gostei. Foi o wah-wah certo na hora certa. Voltou a ser rápido e melódico, voltou a abusar do wah-wah, voltou a usar umas terças ‘estilo Iron Maiden’ em certas horas. Toca muito, é o guitarrista do Metallica. Sonho com o dia em que ele voltará a fazer solos tão melódicos quanto no ‘Master of Puppets’. Só uma sugestão: ele deveria pintar o cabelo de preto, cortar, raspar, sei lá. Fazer qualquer coisa. Esse penteado ‘bruxa da Branca de Neve’ não está favorecendo. Sei lá, é só um toque.

Rob Trujillo. Um cara legal. Toca bem e representa a comunidade latina da Califórnia. Continue assim, Rob, os caras parecem gostar de você. Depois da morte do Cliff Burton, baixista do Metallica tem que servir para unir os caras, não para desagregar. E parece que Rob faz isso muito bem – dizer que o cara toca muito é apenas consequência.

Esse texto elogioso em alguns trechos e crítico em outros não me impede de dizer que ‘Hardwired… to Self-Destruct’ é um dos melhores álbuns do ano. Até porque não existem mais tantos álbuns, né? E o Metallica é um dos últimos artistas relevantes no planeta – espero que essa história de ‘Auto-Destruição’ seja apenas uma metáfora. O Metallica nunca será destruído porque, por mais que tentem destruir a música, Metallica e sua música sobreviverão.

Aumente o som, Metallica Forever!

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