Stanley Kubrick e a sua ‘Magic Hour’

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Stanley Kubrick e a sua ‘Magic Hour’

Stanley Kubrick: O cineasta mais pessimista da história? Nada disso

Stanley Kubrick: O cineasta mais pessimista da história? Nada disso

Stanley Kubrick sempre foi criticado como cineasta, por mostrar exclusivamente o lado negativo e sombrio da natureza humana. Discordo totalmente desse ponto de vista. Dizer que os seus filmes são sombrios, pessimistas quando se trata do fator humano é uma visão bem superficial de alguém que parece que viu, mas não assistiu ou assimilou o conteúdo de forma verdadeira.

 

Magic Hour

“Magic Hour”, é o termo utilizado por cineastas para definir aquele momento do dia quando a luz é perfeita. Geralmente acontece antes do sol se pôr, ou mesmo antes do amanhecer. É uma luz bem mais suave, não tão ‘dura’ como a do meio dia e com belos tons de cores. Ele costumava esperar até final do dia para rodar uma única cena (o confronto entre o pelotão americano e o sniper no filme “Full Metal Jacket” é um bom exemplo).
Stanley Kubrick não só gostava de filmar nessa hora, mas aparentemente, também incorporava esse conceito nos seus filmes. Ele também deixava para o final da estória, um momento onde jogava a sua “magic hour” sobre os personagens, revelando-os e mostrando que apesar de estórias pesadas e intensas, sempre ainda existe algo de bom na natureza humana. Costumava colocar isso como um contraponto nos seus filmes, mas pouca gente percebeu.
Em meio a tanta violência e sombras, no final, apontava um refletor de luz divina para a natureza humana, passando a informação de que ainda existe luz nas pessoas, apesar de serem capazes das piores atrocidades. Vamos aos exemplos:

Evidências da ‘Magic Hour’ nos roteiros:

Paths of Glory – Pra mim o mais emblemático deles. Nesse filme, Kubrick expõe toda a verdadeira monstruosidade dos bastidores de uma guerra: que sempre são por razões financeiras, vaidade política e acúmulo de poder. Não existe glória, honra, nem belas histórias de heroísmo a serem contadas. O herói não sobrevive, ele é assassinado por um pelotão de fuzilamento porque foi injustamente acusado de covardia pelo seu superior (o verdadeiro covarde no caso). Os comandantes, em um determinado momento, dão ordens para seus soldados atirarem num pelotão do próprio exército, para que matassem seus próprios companheiros, por desobedecerem a uma ordem.
A verdadeira realidade de uma guerra: sombria, monstruosa, sem nada relacionado a honra, patriotismo ou liberdade e onde a vida dos soldados são tratadas como peões em um tabuleiro de xadrez, podendo ser sacrificados como se não fossem nada.

No final desse filme, Kubrick nos presenteia com uma das cenas mais emblemáticas do cinema. Os soldados que sobreviveram estão em um Pub, enlouquecidos, bebendo, gritando e “comemorando”, ainda tomados pelo instinto animal do campo de batalha, até que uma bela jovem vem ao palco e começa a cantar uma canção em um idioma estrangeiro que não conhecem. Aquela simples figura, de natureza angelical, cantando uma simples canção, faz com que todos se calem…nesse momento eles começam a se reconectar com a sua essência humana, e a divagar o olhar pro infinito, enquanto escutam aquela canção. Provavelmente, lembrando dos amigos que viram morrer nas trincheiras, dos seus familiares em casa e principalmente na situação insana que estavam vivendo. É um momento onde acordam do pesadelo e parecem voltar a si mesmos. Tudo isso catalisado por uma simples canção, cantada por uma menina estrangeira. Você pode conferir aqui: Uma cena simplesmente divina

Lolita – Um filme pra lá de polêmico por mostrar a relação de um homem de meia idade com uma adolescente. Do início, até próximo ao final, se tem a impressão que é uma relação baseada em sexo e luxúria, que ele só quer se aproveitar dela, porém na última sequência do filme, descobrimos o contrário: o amor era verdadeiro.
Quando ele a reencontra, e agora na companhia de um jovem da sua idade, morando junto e aparentemente feliz, ele comete o ato que pode ser comprovado como a maior prova de amor a alguém:
ele abre mão da sua felicidade em favor a dela. Quando percebe que ela será mais feliz com outro, mesmo sabendo que a felicidade dele depende disso, ele resolve se afastar. Caminha pra fora da casa como alguém que acabou de ser baleado, depois de ver a mulher que ama com outro, mas enfrenta a dor, e segue em frente, pois sabe que ela será mais feliz sem ele, independente de saber que ele está condenado a tristeza e a solidão, a partir daquele momento.
Uma bela cena, com a mais verdadeira prova de amor entre duas pessoas: o seu sacrifício em pró do outro. Pouca gente realmente assimilou esse contexto no filme.
E a vida imita a arte e a arte imita a vida: Woody Allen, né?
No início todos pensavam que era um sujeito de meia idade abusando de uma jovem oriental. Hoje mais de 20 anos depois, está comprovado que se tratava de uma amor verdadeiro, construíram uma família e vivem felizes até hoje. Será que ninguém vê isso?

Eyes wide shut – Após a montanha russa de emoções que o casal passa naquela noite, com revelações dolorosas um pro outro, traições, exposição de uma crise que já vinha se acumulando durante muito tempo, o final parecia inevitável. Mas não foi. Eles não se separam. Ninguém morre. Apesar de tudo que viveram e revelaram um pro outro, resolvem continuar casados, valorizando o fruto do casamento que é uma bela filhinha e seguem em frente. Mais uma luz positiva de como o ser humano é capaz de superar as crises mais intensas de relacionamento.

Full Metal Jacket – O personagem ‘Joker’, sobreviveu ao inferno e agora caminha de volta pra casa. Em um diálogo interno no final do filme, ele se mostra positivo em relação ao futuro: “I’m in a world of shit, but I’m alive and not afraid”, ele pensa enquanto caminha cantando a música do Mickey Mouse junto com o seu pelotão. Claramente uma referência a um recomeço de uma forma juvenil, Kubrick deixa esse clima de esperança no ar para aqueles meninos que sobreviveram e que a vida segue e pode ser boa.

Barry Lyndon – Depois de todos os seus crimes e comportamento horroroso perante a todos que o cerca, a arrogância suprema que prevalecia em Barry Lyndon se esvai. De uma forma muito talentosa, Ryan O’Neal, consegue trazer muito arrependimento pros olhos do personagem no final do filme. Ele deixa de fazer exigências, ou mesmo pensar em vingança. Se percebe que quando resolve partir com a sua mãe, que ele aceita a sua merecida derrota e agora pensa numa nova vida, muito mais simples do que a que tinha, a caminho de uma espécie de redenção.

2001 uma Odisseia no espaço – Após todo caos vivido em espaço aberto por aqueles personagens, Kubrick, mais uma vez, faz questão de encerrar com um contexto positivo e a imagem daquela criança que está prestes a nascer, sugerindo renovação, um novo ciclo da vida e deixando clara a ideia de como sempre existe um recomeço.
A nova estória pode ser contada de uma forma diferente, se o homem mudar e evoluir.

Clock Work orange – O Alex começa um depravado no início do filme e no final…err…é nesse caso não acontece. Ele é depravado até o final mesmo e não tem luz nenhuma aqui. É pura depravação. Sorry.

Um cineasta recluso e estranho. Será?

Outra coisa que sempre achei absurdo em relação ao criticismo que recebeu da mídia: sempre foi acusado de ser um sujeito estranho, muito recluso e que não gostava de aparecer.
Ok, deixa eu ver se eu entendi então: pelo fato dele preferir ficar em casa, na companhia da sua família e dos seus gatos, ele era estranho. Normal é quem vai pro tapete vermelho e fica acenando para um bando de Paparazzis, fazendo pose de ‘Super Star’ e depois vai para a festas regadas a bebidas e mulheres, enquanto a família fica em casa.
Não preciso nem explicar né? Só Uma Hollywood demente, com esse nível de distorção de valores pra vir com uma dessas: “seja normal, seja um debilóide. Sorria pras câmeras, seu trôxa”
O que eu gosto ainda mais, é que ele nunca se deu ao trabalho de explicar nada pra ninguém! Nunca explicou que seus filmes também demonstram um lado positivo da natureza humana, e muito menos falou de questões pessoais, pra justificar seu estilo de vida. Mestre.

A “Magic Hour” na sua vida

Sempre achei que se pode aprender muito com os mestres. Fazendo a analogia de que a sua vida é um filme, perceba que como o Kubrick, sempre pode haver aquela opção de você jogar esse holofote de luz divina sobre uma situação sombria que você vivenciou e deixar uma perspectiva boa para o futuro. Sempre é possível reverter essa polaridade, para algo positivo.
O pôr do sol da sua vida é a cada dia, cada mês, cada ano…. sempre existe “Magic hour” ali, só depende de iniciativa,e apontar esse holofote de luz para o seu presente.
Luzes, câmera…. Ação!

Escrito por: Luis Fernando Rodrigues

2 Comentários

  1. Henrique disse:

    Excelente. Como é bom quando alguém nota algo que a gente nunca tinha reparado mesmo tendo visto algumas vezes esses filmes.

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