A incrível e ‘supersônica’ história do Oasis

Stanley Kubrick: O cineasta mais pessimista da história? Nada disso
Stanley Kubrick e a sua ‘Magic Hour’

A incrível e ‘supersônica’ história do Oasis

Oasis blog

Gosto muito do Oasis, sempre gostei. Meus amigos fãs de Hard Rock não se conformam e sempre falam: “como você que cresceu ouvindo Kiss e Van Halen, pode gostar dessa bandinha de araque?!”. Pois é. Gosto e não é pouco. Pra mim, a maior banda dos anos 90, indiscutivelmente. Acho que eles salvaram a década daquela onda de marasmo e derrotismo criada pelo Grunge.
“Mad fer it”, essa foi a expressão criada para definir o amor dos fãs pela banda. É uma espécie de jargão, quase um código, eu diria. Se você ouvir isso em algum lugar, a partir de agora, já sabe do que se trata. Quando alguém pergunta:“Are you Mad fer it?”, está questionando se você é fã também, e já está subentendido que se trata do Oasis. Tudo dito sem nem pronunciar o nome da banda. Cool, não? Eu acho.
Infelizmente, a grande maioria não conhece o Oasis de verdade. Resolvi escrever esse texto pra poder entrar no detalhe em relação a essência da banda e quebrar essa percepção tão superficial que observo na maior parte das pessoas.
Mas antes, vou de antemão já apresentar a premissa, procurando contextualizar com precisão, a substancialidade do tema em questão: Oasis is Fuckin’ Awesome! Ponto. E aqui está o porque:

Ícones da Cultura Pop

Uma das primeiras coisas que poucos sabem mundo afora, é a importância da banda dentro da Inglaterra. Pelo mundo, eles venderam milhões e lotaram arenas com fãs ansiosos para ouvir os hits da banda. Na Inglaterra porém, a coisa é bem diferente. Não se trata só de mais uma banda que vendeu milhões e fez muito sucesso.
O Oasis foi a voz de uma geração, uma banda que refletiu a realidade social da época  e foram representantes da classe operária na Inglaterra que passava por um momento bem difícil.
No início dos anos 90, após os anos da ‘Dama de Ferro’ – a senhora Margareth Thatcher -, a polarização das classes sociais aumentou exponencialmente: os pobres ficaram ainda mais pobres, e os ricos ainda mais ricos.
Essa realidade foi refletida nas músicas de uma nova banda, formada por cinco meninos da classe operária de Manchester.
A bela “Live Forever” foi a primeira delas, uma música que fala sobre perseverança e amizade e a forma de como transcendem tempos difíceis. Outra menos famosa como “Up in the sky”, criticava a arrogância e prepotência do Parlamento Inglês frente ás classes mais pobres. E a minha favorita : “Cigarettes and Alcohol”. Apesar desse título, a música não é sobre excesso, baladas e bebedeiras e sim sobre a pressão que qualquer jovem adulto sofre quando é cobrado pra arrumar um emprego ‘de verdade’, e se tornar um ‘cidadão digno’, quando tudo que ele quer, é batalhar pelos seus sonhos e aspirações. O verso dessa música que diz: “Is it worth the aggravation, to find yourself a job, when there’s nothing worth working for?”, ficou conhecido como um dos mais relevantes ‘social statements’ da época. Era exatamente o que os jovens viviam no seu dia a dia, procurando emprego numa época de crise, tentando sobreviver, e ao mesmo tempo sonhando com uma carreira nas artes, nos esportes, ou o que fosse. A eterna busca por liberdade evitando ser escravizado pelo sistema. Qualquer semelhança com a realidade presente, não é mera coincidência. Continuo achando essa música bem atual e vale pra qualquer País ou época. É um tipo de situação que todo jovem adulto acaba enfrentando um dia.

Outra coisa interessante, era o contraste quanto á imagem da banda. Quando alguém olhava pro segundo guitarrista do Oasis, apelidado de “Bonehead”(“cabeça de osso”, pelo fato de ser careca), deviam pensar: “esse sujeito é a coisa menos Rock’n’Roll que eu já vi na vida!”. E realmente era. Parecia um operário que tinha acabado de sair da fábrica, que pegou uma guitarra e subiu no palco. Essa imagem porém, dizia muito,  definia a identidade da banda.

Existia algo de especial nessa contradição: cinco meninos de classe operária, sem a menor pinta de Rock Stars,  parados no palco, quase   estáticos, vestidos como as pessoas da platéia, e tocando músicas incríveis que viraram  hinos de uma geração.
A projeção feita pelos fãs foi imediata: “Eles são como a gente! O Liam é um de nós!”, ouvi um garoto dizer  quando entrevistado pela    TV na fila de um dos shows.
A conexão estava feita e acabou gerando uma identificação absurdamente pessoal entre fãs e ídolos, que dessa  vez pareciam mais com     os seus vizinhos de rua do que com celebridades. A classe operária estava no palco, e  dominou o mainstream. O sucesso do  primeiro álbum, “Definitely Maybe”, foi absurdo. Vendeu 15 milhões de cópias e bateu um recorde de velocidade de vendas que pertencia aos Beatles. Depois, veio o fantasma do segundo disco:  “será que eles ainda conseguem fazer algum sucesso?”.  Não fizeram algum, nem igual ao primeiro… fizeram mais. O segundo disco  vendeu 18 milhões de cópias e alavancou a banda para um nível de idolatria que ninguém esperava. Conquistaram o mundo: estádios e arenas, totalmente sold-out por toda Europa, EUA , Japão e mais tarde chegaram na América do Sul também. Essa nova onda ficou conhecida como a nova “British Invasion” em referência á dos Beatles nos anos 60.

Oasis não é ‘Wonderwall’ !!

Ah, Por favor!! Repitam a frase acima como um mantra inúmeras vezes. Dizer que Oasis é ‘Wonderwall’ é a mesma coisa dizer que Extreme é “More than words”, então por favor: Don’t!
Nunca gostei dessa música e não entendo como se tornou o maior sucesso da banda. A bela “Champagne Supernova” do mesmo disco é infinitamente mais expressiva como composição, ou mesmo como um hit pra tocar na rádio.
O problema de “Wonderwall” ter feito tanto sucesso, é que ficou como referência direta pra banda: quando alguém diz ‘Oasis’, é a primeira música que vêm na cabeça das pessoas, o que é péssimo. É daí que vem essa coisa de chamarem eles de ‘bandinha’, que fez aquele hitizinho chato de violão que tocou zilhões de vezes na rádio e na MTV .
Como fã que conhece todos os discos, posso afirmar que existem dezenas de músicas melhores do que essa, várias pérolas que estão alí, perdidas na posição de quarta música do lado B do vinil e que ninguém conhece e valoriza(com exceção dos “Mad fer it”, lógico). Um exemplo: “Born in a different Cloud”, composição do Liam Gallagher. Se alguém me perguntasse, ‘O que é Oasis?’, mostraria isso aqui antes de mais nada: a versão ao vivo de “Cigarettes and Alcohol”, que acho bem melhor que a de estúdio, e sumariza bem o que a banda realmente representa.

Se você não gosta e continua não gostando da banda depois de ver esse vídeo, ok. Mas pelo menos agora, é uma opinião com mais fundamento e que não é baseada exclusivamente na música que tocou na rádio e na MTV sem parar, quase uma lavagem cerebral na mulecada da época. Oasis não é “Wonderwall”.

Ao vivo, na Inglaterra

Tive a oportunidade de assistir á dois shows da banda na Inglaterra em 2006, e mesmo sendo muito tempo depois da explosão do fenômeno, a relação entre fãs e banda permanecia com o mesmo calibre. Um dos momentos mais memoráveis foi no início, quando apagaram as luzes e um coro gigantesco, pronunciando o nome da banda, tomou conta do estádio. Parecia uma espécie de fanatismo religioso, algo cerimonial e muito mais intenso do que já testemunhei em shows de outras bandas. Segue um clipe que filmei nessa noite, com uma câmera digital furréca em uma mão e um Pint de Guinness na outra:

SUPERSONIC – Novo Documentário

Foi lançado recentemente um novo documentário sobre a história da banda, dando ênfase á fase de maior sucesso.
O documentário “Supersonic” mostra cenas inéditas desse período da carreira dos irmãos Gallagher, que definiu a Cultura Pop dos anos 90.
Nos dias 10 e 11 de Agosto de 1996, a banda fez dois shows em Knebworth na Inglaterra para 250.000 pessoas – até então, o maior show já realizado no País -, e também sendo considerado o momento de ápice do movimento musical conhecido como “British Pop”, que além do Oasis inclui bandas como ‘The Verve’ e ‘Blur’ (odeio Blur, nunca gostei. Blur é muito chato. Odeio Blur. Voce gosta? Eu odeio).
Os números desse show são estarrecedores: 4% da população da Inglaterra se registrou pra tentar comprar ingressos.
Dá pra entender o que é isso? Não, não dá. Estou falando de TODA a população do País, isso inclui desde recém nascidos, até pessoas com 90 anos de idade. Se fossem considerar só a faixa etária média de pessoas que vão á um show de rock, esse número seria bem maior e mais realista. De acordo com as estimativas, o Oasis poderia ter se apresentado por várias noites com o mesmo número de público ao invés de somente duas. Dá pra entender o que é isso? Dá não.
E você achando que o Foo Fighters é grande, né?

THE END

A banda acabou. Finito. Os irmãos Gallagher saíram no braço e nunca mais voltaram a tocar juntos. Todo mundo sabe que eventualmente vai haver uma reunion, e todo mundo sabe também, que nunca mais será a mesma coisa, nem perto disso. Vai ser bom pra poder matar saudade das músicas com um Pint de cerveja na mão, mas é impossível reviver uma época. É impossível reviver Woodstock, os anos 80 ou os 90. Vale pelo deleite nostálgico de poder relembrar os bons tempos cantando os hinos daquela fase.

Independente de qualquer coisa, o verdadeiro legado, é que naquele momento, o fenômeno Oasis foi algo muito verdadeiro. Deu voz á uma geração que era totalmente ignorada; gerou um senso de unidade em uma juventude que estava fragmentada e perdida; criou hinos que são cantados até hoje nas mais diversas situações; deu força de espírito para os que se viam sem perspectiva nenhuma.
Poucas bandas da Inglaterra conseguiram refletir tanto uma realidade social de forma tão simples e verdadeira. Noel Gallagher diz que até hoje as pessoas chegam pra ele contando o quanto o Oasis foi importante em suas vidas, sempre descrevendo detalhes muito pessoais.


E volto a dizer: a realidade descrita nas músicas se aplica a qualquer País, são temas universais. Virei fã justamente por também me identificar muito com os textos das músicas, de várias formas diferentes, e ter passado por situações semelhantes no início da fase adulta, que estavam claramente descritas naquelas canções.

Então fica só mais uma pergunta antes de encerrarmos:
Are you Mad fer it?

 

Escrito por: Luis Fernando Rodrigues

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *