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Sophia Loren merece mais que um simples post

Sophia2000

Como acho que Sophia Loren merece muito mais que um simples post, publico aqui o emocionante texto do jornalista (e meu pai) Adones de Oliveira sobre o dia em que esteve frente a frente com a diva italiana, em 2004. E digo com orgulho: ainda falta tanto para eu aprender a escrever como ele…

Foto: Sophia Loren no Brasil, em 2000 (Tasso Marcelo/AE)

A beleza atemporal de Sophia
Adones de Oliveira

Entre os incontáveis convites que recebi ao longo da minha carreira de jornalista, um deles, em especial, foi cinematográfico: a inauguração do navio italiano MSC Lírica, no porto de Nápoles, que incluía passagem pela ilha de Capri, com pernoite no San Michele, um hotel de 1830 que já hospedou tantas celebridades quanto os anos que tem e uma senhora festa de batismo do navio, estrelando no papel de madrinha, Sophia Loren. ‘La signora Loren’, como é anunciada.

Sophia em pessoa. À sua chegada à cerimônia, com atraso de noiva, criou-se como sempre o congestionamento habitual, formado por dezenas de fotógrafos, cada um dos quais querendo flagrar a estrela no seu melhor ângulo, o deles e o dela.

Sophia desce do carro e os enfrenta a todos com o fair-play e a experiência adquiridos nas muitas décadas de exposições às câmeras e aos holofotes. Desde os anos 50, quando começou sua carreira – Sophia já fez mais de cem filmes -, de pequenos papéis em épicos como ‘Quo Vadis’ e de protagonista absoluta em dezenas de produções de todos os gêneros. Quer dizer, a vida inteira sob a luz, câmera, ação.

Diante de mim está Sophia Loren, como esteve tantas vezes, nos filmes que fez com mil e um diretores e tantos atores famosos, na Itália, na França, nos Estados Unidos, com sua lendária exuberância de formas e de falas, pontuadas por uma gesticulação napolitana, tão dela e tão da Itália.

Sophia continua bela, ainda bonita, não como às vésperas dos 70 – la signora nasceu no dia 20 de setembro de 1934 – mas como a mulher que se preservou, jovem, alta e de incrível aprumo vertical, altiva como nas passarelas em que desfila a elegância, nata e adquirida. Além de atriz, Sophia Loren transformou-se em referência de bom gosto, de bem vestir e de valorizadora de grifes famosas.

Olho para ela e a vejo como uma espécie de atemporalidade, imune ao passar dos anos, com o mesmo rosto anguloso, as mesmas maçãs salientes da faccia, o mesmo ar de tigresa peninsular que é a sua marca. Olho-a e procuro convencer-me de que não estou no cinema. Acompanhada pelos anfitriões, Sophia sobe uma escada que a leva à proa do navio, de onde vai batizá-lo, no clássico atirar do champagne no casco.

No dia claro e à luz literalmente mediterrânea, não estou mais aqui no porto de Nápoles, mas no escuro do cinema, no Rio e em São Paulo, acompanhando Sophia nos seus muitos papéis, aqueles deliciosos, como os da série ‘Pão, Amor e Fantasia’, as muitas comédias com Marcello Mastroianni – os dois fizeram mais de 12 filmes juntos -, aos grandes desempenhos, como no ‘La Ciociara’ (Duas Mulheres), de Vitório de Sicca, que lhe deu o Oscar de melhor atriz em 1960. Enquanto acena do alto do navio, atendendo aos apelos de Sophia! Sophia!

Revejo-a na pele de personagens tão diversos como a Aída, pintada de negra etíope na ópera de Verdi; a Ximena de ‘El Cid’; na pele de Aldonza em ‘The Man of la Mancha’; com Marlon Brando, como a condessa de Hong Kong, no último filme do monstro Chaplin. Sophia com tantos outros parceiros, Cary Grant, Gregory Peck, William Holden, até John Wayne, imagine.

De modo que Sophia Loren continua em cartaz, mais duradoura do que outros ícones da constelação do cinema, uns porque morreram, como Marilyn Monroe, outros porque se eclipsaram naturalmente, como Gina Lollobrigida, sua mais constante rival, outras porque o tempo e o descaso e o desencanto pessoais levaram ao auto-ostracismo, ao desencanto e até a um certo amargor. Como é o caso de Brigitte Bardot, quem nem sombra chega a ser hoje da provocante mulher que Deus criou no filme de Roger Vadim.

BB é o exemplo mais acabado do que o envelhecer de uma atriz não deve ser. Ao contrário de Sophia Loren, irresistivelmente fascinante, como a vejo na moldura do navio e do Mediterrâneo.